Business
Morre Ratan Tata, ícone do conglomerado indiano, aos 86 anos de idade
Ratan Tata, o visionário que transformou seu conglomerado em um império global, faleceu aos 86 anos. Seu legado perdurará por gerações.

Morreu aos 86 anos Ratan Tata, um dos empresários mais influentes da Índia, que pegou um dos conglomerados mais antigos do país e o transformou em um verdadeiro império global.
A confirmação de seu falecimento veio através de um comunicado do atual presidente do Grupo Tata, Natarajan Chandrasekaran, que o homenageou como “um líder extraordinário cujas contribuições inestimáveis moldaram não só o Grupo Tata, mas também a própria Índia.”
Como presidente do conglomerado durante mais de 20 anos, a partir de 1991, Tata teve um papel fundamental na rápida expansão do grupo, que hoje atua em mais de 100 países e alcançou a impressionante receita de R$ 165 bilhões no ano que terminou em março de 2024.
O conglomerado é conhecido por sua ampla gama de produtos, que vai desde café a automóveis, e não parou por aí: também implantou o primeiro superapp da Índia e se associou à Powerchip Semiconductor Manufacturing Corp. de Taiwan para abrir uma fábrica de chips de US$ 11 bilhões na Índia, além de planejar uma unidade para montagem de iPhones.
Durante o comando de Tata, o conglomerado protagonizou uma notável onda de expansão que simbolizou a reversão do legado colonial da Índia, adquirindo ativos icônicos britânicos como a produtora de aço Corus Group Plc. em 2007 e a fabricante de automóveis de luxo Jaguar Land Rover em 2008. Contudo, a crise financeira que se seguiu impactou severamente os mercados globais, reduzindo as vendas de automóveis em economias maduras.
“Ratan Tata sonhou em grande e levou sua visão além das fronteiras indianas”, disse Kavil Ramachandran, CEO do Thomas Schmidheiny Center for Family Enterprise na Indian School of Business em Hyderabad. “Embora tenha pensado de forma global, algumas dessas iniciativas foram apressadas.”
Tata liderou por 21 anos durante sua primeira gestão, afastando-se em 2012, mas retornou como chefe interino em 2016, em meio a turbulências após a saída conturbada de seu sucessor, Cyrus Mistry.
O empresário também esteve no centro de intenso disputas de controle do conglomerado em duas ocasiões: a primeira foi durante sua ascensão à presidência em 1991 e a segunda em 2016, quando a disputa envolveu a preservação de seu legado, enquanto Mistry buscava reduzir a dívida.
Tata foi vitorioso em ambas as batalhas. Em 2016, Mistry foi destituído da presidência da Tata Sons, a holding principal do grupo, em um movimento que desencadeou uma amarga guerra judicial, ameaçando uma parceria de 70 anos com a família Mistry e fortalecendo a posição de Tata no conglomerado.
Ataque Terrorista
O conglomerado enfrentou outro desafio em 2008, quando terroristas atacaram o emblemático Taj Mahal Palace, situado em frente ao Portal da Índia em Mumbai. O ataque resultou na tragédia de 31 vidas, incluindo 11 funcionários, e se estendeu por quatro dias. Atualmente, os hóspedes do hotel encontram um memorial dedicado às vítimas, que Tata visitou pessoalmente.
Tata viveu uma vida singular; nunca se casou e não deixou filhos. Sua morte cria um vazio na liderança dos poderosos Tata Trusts, que detêm cerca de 66% da Tata Sons, controlando as principais companhias do conglomerado. Historicamente, os Tata Trusts foram liderados por um membro da família Tata, exercendo controle crucial sobre o grupo.
Nos últimos anos, Tata se tornou um defensor fervoroso de startups, como a Ola Electric Mobility, que teve uma listagem icônica em 2024, e a Goodfellows, dedicada a fomentar amizades intergeracionais. O Grupo Tata, com raízes que remontam a 1868, foi fundado por Jamsetji Nusserwanji Tata e se diversificou para incluir indústrias como fábricas de algodão e usinas de aço.
Público e Privado
Ratan Tata nasceu em Mumbai em 28 de dezembro de 1937, sendo criado por sua avó após o divórcio de seus pais, Naval e Sooni Tata, aos 10 anos. Seu pai foi adotado pela família Tata aos 13 anos. Crescendo sob os cuidados da avó, Tata estudou em Mumbai e, mesmo sendo um jovem talentoso em piano e críquete, lutava com a ansiedade ao falar em público. Seu irmão mais novo, Jimmy Tata, preferiu permanecer fora do foco público, levando a um mistério em torno de sua vida.
“Vivemos um bom nível de bullying e desconforto devido ao divórcio de nossos pais, que não era comum na época”, escreveu Ratan em uma reflexão no Facebook em 2020. “Porém, nossa avó nos ensinou a manter a dignidade sempre, um valor que carrego comigo até hoje.”
Tata seguiu para os Estados Unidos para estudar na Universidade Cornell, onde inicialmente buscou um diploma em engenharia mecânica, mas a vocação arquitetônica falou mais alto. “Sempre quis ser arquiteto e, no final do meu segundo ano, mudei de curso. Meu pai não gostou nada disso”, recordou em 2009. Formou-se em arquitetura em 1962.
O Caminho Para o Sucesso
Após seu retorno à Índia devido à saúde da avó, Tata recebeu uma oferta da IBM. Convencido por JRD Tata, então presidente da Tata Sons e parente distante, ele ingressou no grupo em 1962, passando por diversas unidades antes de subir para a gestão nos anos 70.
Quando Tata assumiu a presidência da Tata Sons em 1991, o foco do grupo ainda estava predominantemente na Índia. A Tata Consultancy Services, que se tornaria uma fonte crucial de receita anos depois, ainda estava engatinhando.
A década de 1990 foi marcada por reformas econômicas na Índia que permitiram maior competitividade ao setor privado, possibilitando a entrada de montadoras estrangeiras como Ford e Hyundai. Tata percebeu a crescente demanda e decidiu produzir veículos. O Indica, seu primeiro carro de passageiros, foi lançado em 1998 e carinhosamente chamado por ele de “meu bebê”.
Com o crescimento econômico que se seguiu nos anos 2000, Tata se tornou mais arrojado. Em 2007, ele contraiu dívidas massivas para adquirir a Corus por cerca de US$ 13 bilhões e, no ano seguinte, a Jaguar Land Rover da Ford por US$ 2,3 bilhões, além de adquirir o Tetley Group e a unidade de veículos pesados do grupo sul-coreano Daewoo.
Desafios e Superações
Embora essas aquisições tenham impulsionado o alcance do conglomerado, trouxeram também dificuldades. A crise financeira de 2008 desencadeou uma queda acentuada nos preços das commodities e, com a China inundando o mercado com aço, surgiram críticas sobre o que muitos consideraram ser um preço excessivo pela Corus. A Tata Steel Ltd. foi forçada a reduzir suas operações na Europa e demitir milhares de funcionários.
A Jaguar Land Rover enfrentou sua própria batalhas logo após a compra, com a crise financeira impactando a demanda por carros de luxo e suas capacidades de crédito. Apesar de a marca ter conseguido se recuperar sob a gestão de Tata, novos obstáculos surgiram, como a redução da demanda na China e o Brexit, seguidos pela pandemia e a escassez de chips.
Um revés notável ocorreu com o lançamento do microcarro Nano. Tata tinha a ambição de criar um veículo acessível, mas a produção foi encerrada em 2018 devido à baixa demanda, em parte pela percepção de preocupações com qualidade e segurança.
A última grande batalha empresarial de Tata foi a recuperação da Air India em 2021, quase 90 anos após sua nacionalização. Com a transportadora em dificuldades, o retorno dela ao grupo significou muito para Tata, reavivando um legado que seu mentor, JRD, havia ajudado a fundar.

You must be logged in to post a comment Login